domingo, 14 de outubro de 2012

O envelope

Deixo aqui mais uma de minhas crônicas. :)

O envelope
           
            É estranho como a gente acha que coisas ruins jamais acontecerão conosco. Mas o que nos torna imunes a tais sucessos? Deve ser o nosso próprio medo de admitir a fragilidade de nossa vida e o receio de nosso destino: ser apenas mais uma pessoa neste colossal universo.
            Ainda me lembro (como me esquecer daquilo?) da primeira vez que um simples envelope lacrado continha as rédeas de meu futuro. Estava sentado ao lado de Carlos, o único que soube disso até hoje. Era uma tarde de primavera um pouco quente para os padrões paulistas. Mas para mim parecia um verão escaldante carioca sem as praias e curtições. Carlos me questionava o porquê da demora em abrir aquele papel; o que foi feito já estava feito – os ponteiros do relógio não andam para trás. Porém o medo me dominava e minhas mãos estavam molhadas demais (uma catarata nascia delas). Foi então que peguei o envelope de meu amigo e com o papel fiquei por alguns instantes, os quais me fizeram recordar das semanas anteriores.
            Estávamos Soninha e eu sozinhos em sua casa, estudando para a prova de Matemática marcada para o dia seguinte. O estudo foi apenas um pretexto para ficarmos a sós, pois ambos sabiam nada da matéria e, naquelas situações, um mais um daria sessenta e nove. E foi nisso que resultou esta adição. Largamos os livros e os lápis sobre a cama dela, começando a nos beijar profundamente, arremessando os materiais escolares ao chão. Ela já nua e eu também, ou seja, um mais um não deu dois. Foi aí que me veio à cabeça a questão da camisinha, mas não a tínhamos. Não dei importância e continuei com nossos estudos matemáticos que se transfiguraram em anatomia humana. Sabia o erro cometido, mas não dava para esperar: era agora ou agora – afinal, o que poderia dar errado? Era só ela tomar a pílula do dia seguinte e eu não gozar dentro dela (e foi exatamente isso que fizemos). Bem, já ficava tarde e os pais dela poderiam chegar. Saí do apartamento às pressas, me arrumando no elevador.
            Admito que, enquanto me lembrava, uma onda de voluptuosidade percorreu meu corpo todo. Porém, subitamente, retornei à realidade: eu ali, na praça, com meu colega, segurando um teste de HIV, torcendo para ser negativo assim como o teste de gravidez de Soninha. Esperei por mais algum tempo e, finalmente, abri o envelope. Carlos, ansioso, me perguntava o resultado e eu, feliz, gritava “Negativo, Carlos! Deu negativo de novo!”.

            

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