terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Com certeza, ele é!


Quando recebi a mensagem de texto de Tatiana, dizendo sobre o coquetel no próximo sábado, estava na Getúlio de Moura, retornando para casa depois de mais uma extenuante sexta-feira de trabalho. O SMS era o mais curto possível, só me lembrava da existência do evento e de nada mais. Liguei para ela ao chegar a casa a fim de saber onde era a tal festa, o horário e o seu motivo (Tatiana falou-me sobre o lançamento de um livro de um tal fulano) e, após um banho relaxante, adormeci. 

Marcamos nosso encontro às dezoito horas em frente ao Café de Paris, para então seguirmos ao coquetel de táxi. Nenhuma de nós duas gosta de dirigir e, afinal, beberíamos um pouco. Já no local da festa, Tatiana me deixa só e se mistura com o restante das pessoas que lá estavam a discutir sobre o livro do qual eu não conhecia nem o título. 

Fiquei alguns minutos no bar ou foram vários, não me recordo – o álcool já fazia parte de minha circulação sanguínea. Avisto Tatiana se aproximando sorridente, mas com um sorriso lascivo, que fez muitos homens que a observavam fantasiar. Descobri, então, o porquê daquela voluptuosidade toda, ela estava de mãos dadas com um homem (quase um deus grego), a quem me apresentou e, simplesmente, voltou a se perder por entre aquelas pessoas todas. 

Sozinhos estávamos. Ele se apresentou como Richard Jason, começando a falar. Porém os seus assuntos eram os mesmos que os meus, ou seja, ele falava coisas sobre o que passou na Fashion Police ou no Discovery Home and Health. Como eram objetos de meu mundo de entretenimento, continuei a conversa observando-o cada vez mais e percebendo seu jeito delicado de falar e gesticular (um deus grego afeminado? Não pode ser!). Enquanto ele citava os sucessos da vida das celebridades, me peguei pensando se ele era gay – com um nome daqueles, a mãe só deveria querer isso mesmo. 

“Ah, com certeza, ele é! Olha como ele está todo arrumadinho e lustroso (nenhum homem é tão vaidoso assim! Nem mesmo um deus)! Deve ter passado horas em frente ao espelho tentando ficar o mais belo possível para flertar com qualquer homem que lhe dê alguma piscadela.”. Foi o que pensei enquanto ele falava de algo importante para o mundo e o bem de todos. Novamente, ajuizei “Com certeza ele é gay. Está todo ‘purpurinado’. A Tati me paga! Onde já se viu isso? Eca!!!”. 

Richard prosseguia com nosso diálogo, enquanto eu imaginava o quanto nauseabundo ele era, apesar de ser um exímio arquiteto, morar numa cobertura em Botafogo, praticar tênis e de ainda contribuir com alguma entidade de caridade (seria perfeito, porém ele é gay!!!). Então, Tatiana se aproxima e, não sei a razão, ela simplesmente me puxa o braço, suplicando para irmos embora. Despeço-me do Richard Jason com um beijo em cada uma de suas bochechas e com um “até logo”. “Eca! Ele é gay!”, pensei. 

Tatiana nada me diz sobre o que ocorrera no salão, mas imagino que algum rapaz a tenha desrespeitado, como de praxes. Contudo, soube depois que foi devido a um incidente ao tentar defender um homossexual amigo seu (ela não suportou o modo como os seguranças o trataram, assim, ela deu início a um de seus faniquitos, dizendo que não ficaria nem mais um minuto sequer naquele recinto). “Aqueles trogloditas não entendem que há outras formas de amar. Um homem gostar de outro não significa que seja inferior ou superior. Arg! Na Grécia Antiga, isso não era assim! Tim Maia estava equivocado: homem dançando com homem e mulher, com mulher também pode!”, Tatiana desabafa comigo. 

Passados alguns meses do coquetel, minha amiga liga para mim, informando-me sobre o casamento de Richard Jason e de que fomos convidadas (nem fui simpática, pensei, deve ser coisa de gays). Fico boquiaberta. Como assim? Sendo ele budista, será que vai ser em um templo? Quis saber sobre tudo, não sendo ríspida, tanto é que fiquei sem o conhecimento do nome do cônjuge. Dois dias após, recebo o convite: “Richard Jason Souza Andrade e Maria Clara Aquino possuem o prazer de te convidar para o seu matrimônio...”.

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