quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Sai da frente, que tem dono!

Bem, aqui vai mais uma de minhas crônicas. Espero que gostem.

Cinco e meia da manhã: o despertador ressona pelo quarto, lembrando-me de que hoje é mais um dia de ir ao trabalho, tentar transmitir um pouco de conhecimento para os jovens deste país. Pois bem, levanto-me, banho-me e tomo meu desjejum com meu marido, que, como sempre, está atrasado. Entre poucas palavras e mastigações apressadas, compartilhamos do nosso matrimônio. Mas já vão sendo horas e Marcus precisa ir e eu também, porém, antes me despeço de Ana, nossa filha. Descemos ao andar da garagem pelo elevador, sem resquício algum de conversa ou felicidade, nos dirigimos aos carros e, maquinalmente, despedimo-nos com um simples beijo e um “Vejo você mais tarde” insosso. 

Já na Rua Santa Clara, não tão distante de casa, deparo-me com uma cena comum: no semáforo, meninos e meninas, com seus frágeis bracinhos, tentam a arte do malabarismo com os mais variados tipos de objetos e frutas. Terminado o triste espetáculo, um dos garotos se aproxima: 

- Tia, me arruma um trocado. – entre um sorriso de simpatia e um olhar de melancolia, suplica a criança – Tô sem comer desde ontem. – Pego algumas moedas soltas no carro e lhe entrego, enquanto motoristas já buzinam impacientemente. Passo a marcha e sigo à escola. 

Chegando à escola, dou vida a minha rotina: explico sintaxe, morfologia, literatura, algumas discussões com alunos e outros com a diretoria. 

Transcorrem as horas da minha labutação e às seis da tarde, por sorte desta vez, já que sempre há algo para eu resolver, consigo adentrar no carro e retornar a meu apartamento. Em casa, encontro minha filha assistindo a algum programa inútil, tento iniciar uma conversa, todavia apenas gasto energias. Marcus entra pela porta às sete e meia e, pontualmente às oito horas, jantamos todos na tentativa de manter algum hábito de uma família feliz e perfeita. 

Cinco e meia de sexta-feira, estou acordada e me arrumando. Vivo novamente o mesmo dia de ontem e o de amanhã (nada muda, é uma eterna monotonia que me consome a alma). No semáforo, o mesmo menino me pede dinheiro e eu lhe dou, sigo meu rumo ao colégio. 

Já na tarde de sábado, indo até o supermercado, avisto aquele pobre garoto, embebido na sua insignificância, a espera da coloração vermelha do semáforo. Relutantemente, decido dele me aproximar. Ao me ver, com a mão estendida, me suplica algumas moedas, eu as dou e ele agradece. Iria me despedir, porém, algum eu social dentro de mim retrucou: 

- Está com fome, menino? Que tal lanchar no McDonald’s? 

Seus olhos ficaram repletos de um brilho e ele, balbuciando, disse: 

- No, no McDonald’s, tia? ­Não posso, se eu ir não ganho dinheiro no sinal. 

- Deixa disso e vamos. – tentei convencer a criança, que estava assustada e deslumbrada. 

Enfim, ele aceita o convite. Durante o trajeto até a lanchonete, conheço um pouco sobre Gabriel, um menino pobre, sujo e excluído tentando amenizar o sofrimento da família. Comprado o lanche, na verdade, dois: um por causa do brinquedo e outro pelo tamanho, Gabriel comenta nunca ter comido no McDonald’s e, ingenuamente, demonstrando a candura de uma criança de dez anos, fala-me sobre sua história: 

- Tia, eu não tô lá naquele sinal porque quero. Meus irmão e minha mãe precisa de ajuda e eu me viro lá. A gente até morava numa casinha, mas veio os policiais e tirou tudo da gente. 

- Como assim, Gabriel? – fiquei estupefata, contudo, subitamente, lembrei-me da reapropriação de terra ocorrida há, aproximadamente, dois anos. 

- Sim, tia. Os policial vieram e tomaram a nossa casa com muita violência. Mamãe já vinha recebendo cartas que avisava para ela deixar a casa, pois ela não tinha comprado o terreno... Mas, numa segunda-feira, antes do povo lá da comunidade ir pro trabalho, um bando de policial, com, com... qual o nome daquele troço que fala alto? 

- Alto-falante? 

- Isso, com alto-falante, disse que a gente tinha quinze minutos para deixar o barraco antes deles colocar tudo ao chão. As pessoa não gostou disso e começou a brigar com a autoridade. Mamãe falou com um policial, tentando tocar o coração daquele monstro: “Moço, não faça isso. Eu não tenho nada além dessa casa. Pra onde eu vou com minhas criança?”. Ele tava nem aí pra ela e disse: “Só cumpro ordens minha senhora. Não posso fazer nada. Tire suas coisas de dentro da casa e sai da frente, que a terra tem dono.” - houve uma interrupção, pois Gabriel queria degustar de seu sanduíche e de suas batatas fritas, experimentando alguma felicidade enquanto chorava o seu passado não tão distante. 

- Daí, a gente ficou sem onde ir e fomos dormir na rua. Minha mãe se inscreveu para receber ajuda do governo para pagar o aluguel, mas demorou pra caramba essa ajuda. Com essa grana, ficamos numa casa alugada sem nada, porque as coisa (televisão, geladeira, guarda-roupa) foi destruído pelos policiais. A gente tá lá desde então, mas não tem dinheiro. O aluguel é caro e minha mãe tá sem trabalho e eu não tenho pai. O dinheiro da casa vai pra comida e o dono dela está bravo, pois tá atrasado demais o pagamento. A gente tem medo de voltar pra rua e eu ajudo no sinal e minha mãe tá atrás de emprego. – o menino prosseguiu ao outro lanche, porém, dessa vez, um pouco deprimido e envergonhado, e, aos poucos, a fome mitigou seus sentimentos. 

Confesso que fiquei atônita, pois ele falava com tamanha naturalidade que fazia esse seu padecimento parecer trivial e normal. Recordo-me que lágrimas desceram pela minha face sem ele tomar ciência do ocorrido – estava concentrado no seu raro momento infantil. Abruptamente, Gabriel se levanta e pergunta sobre as horas: “Cinco e meia”, respondo-lhe. Sem se despedir, sai da lanchonete apressado, levando suas laranjas para o malabarismo. Como ele, retiro-me do McDonald’s e me dirijo ao supermercado para comprar algumas frutas. Retornado ao apartamento, passo por Gabriel, que está concentrado demais no seu “emprego” para me avistar e perceber que o semáforo ficou verde aos veículos. O motorista da frente grita: 

- Sai da frente, moleque, que a rua tem dono! – ele, ainda meio embaraçado, anda para a calçada à espera do vermelho do semáforo. 




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